Caso Ruby Franke e o lado sombrio da influência
Se a história de Ruby Franke te deixou desconfortável, talvez esse incômodo seja um chamado para reflexão. Seu caso mostra como a obsessão com a imagem pode distorcer valores e levar a escolhas devastadoras.
A série Devil in the Family, lançada pelo Hulu, expôs a chocante trajetória de Ruby Franke, uma influenciadora digital conhecida por seus vídeos sobre a vida em família. Com milhões de seguidores e mais de um bilhão de visualizações no YouTube, Ruby construiu a imagem de uma mãe dedicada e disciplinada.
No entanto, por trás das câmeras, a realidade era bem diferente. Em 2023, ela foi presa sob acusações de abuso infantil, revelando um lado obscuro de sua vida que chocou o público.
A história de Ruby Franke não é apenas um escândalo isolado, mas um alerta sobre os perigos da busca incessante pela perfeição nas redes sociais. Até que ponto a necessidade de controle e validação pode levar alguém a ultrapassar limites inaceitáveis? O caso de Ruby nos convida a refletir sobre as pressões, expectativas e ilusões criadas no mundo digital — e como elas podem impactar vidas de forma trágica.

Perfeccionismo: a obsessão pela aparência de perfeição
Um dos aspectos mais perturbadores da história de Ruby Franke não é apenas a busca pela perfeição, mas a obsessão com a imagem de parecer perfeita — feliz, realizada, impecável.
Em tempos de redes sociais, essa pressão não é exclusiva de uma cultura ou religião. O mundo ocidental inteiro gira em torno da estética, da idealização da vida e da necessidade de aprovação. E isso pode se tornar uma armadilha perigosa.
Desde os primeiros minutos da série Devil in the Family, o perfeccionismo surge como um fator central na dinâmica da família Franke.
“Existe uma cultura de perfeccionismo aqui”, afirma um terapeuta entrevistado, referindo-se à pressão para parecer uma família exemplar. O próprio Kevin Franke admitiu que a maior ambição de Ruby era ser vista como a mãe perfeita.
E essa diferença — ser vista como perfeita, em vez de ser realmente boa — é fundamental.
Na era digital, onde cada momento pode ser documentado e compartilhado, existe uma pressão constante para projetar uma vida sem falhas. Para Ruby, cuja família era pública e tinha milhões de seguidores, essa necessidade de controle sobre a própria imagem foi levada ao extremo. Mas quando a busca pela aparência perfeita se torna mais importante do que fazer o bem, os danos podem ser irreversíveis.
O perfeccionismo confunde retidão com impecabilidade, impondo um padrão inatingível e gerando autocrítica destrutiva. Quem busca a perfeição absoluta acaba usando estratégias rígidas e, muitas vezes, baseadas na vergonha.
Foi exatamente isso que Ruby Franke aprendeu e aplicou com os métodos de Jodi Hildebrandt, sua amiga e mentora. A abordagem disciplinar que adotaram, em vez de ensinar e inspirar, causava medo e punições severas. E, no caso dos filhos de Ruby, isso resultou em abusos que chocaram o mundo.

Deus nunca esperou que fôssemos impecáveis
O perfeccionismo também mina a compaixão. Pequenos erros se tornam imperdoáveis, tanto para nós mesmos quanto para os outros. Quando aplicamos essa mentalidade aos nossos filhos, arriscamos acreditar que podemos controlar cada comportamento deles — o que simplesmente não é verdade.
Toda mãe já passou pela experiência de um filho fazendo birra em público. E, em vez de aceitar que crianças são naturalmente imperfeitas e estão aprendendo, muitos pais entram em pânico, temendo o julgamento dos outros.
O medo de não parecer uma “boa mãe” ou um “bom pai” pode levar a reações desproporcionais, sem percebermos que errar faz parte do crescimento.
Deus nunca esperou que fôssemos impecáveis — Ele espera que aprendamos, cresçamos e sigamos em frente. Como o Élder Dieter F. Uchtdorf disse:
“Todos já vimos um bebê aprendendo a andar. Ele dá um passinho, tropeça e cai. Será que o repreendemos por tentar? É claro que não! Que pai puniria um bebê por tropeçar? Incentivamos, aplaudimos, elogiamos, porque a cada passinho a criança se torna mais semelhante aos pais.”
A mensagem do evangelho nunca foi sobre alcançar uma perfeição rígida e inatingível. O evangelho de Jesus Cristo é sobre graça, progresso e transformação.

Conexão real com Deus
Mas Ruby, influenciada pelos ensinamentos distorcidos de Jodi Hildebrandt, caiu na armadilha de acreditar que “verdade” significava controle absoluto, disciplina extrema e corte de laços com quem não atendia às suas expectativas. No caso de seus filhos, essa visão se tornou fatal.
No fim das contas, são os algoritmos que decidem o que aparece na tela, mas somos nós que escolhemos onde colocar nossa atenção.
A verdadeira bondade não vem de parecer perfeito, mas de reconhecer nossas falhas, oferecer graça a nós mesmos e aos outros, e continuar tentando. O perfeccionismo sufoca a humanidade, tornando-a fria e exaustiva.
Cristo, por outro lado, nunca exigiu que fôssemos impecáveis — Ele nos chamou para perto Dele, exatamente como somos. Onde o perfeccionismo nos isola, Cristo nos conecta. Onde o perfeccionismo nos envergonha, Cristo nos restaura.
Ao abrir mão do perfeccionismo, abrimos espaço para uma conexão mais real com Deus, conosco mesmos e com aqueles que amamos.
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Quando a busca por aprovação cega o bom senso
Se o perfeccionismo levou Ruby Franke a extremos abusivos, a história de Kevin Franke é um alerta sobre os perigos de terceirizar a própria responsabilidade moral em nome do amor e da aceitação.
Desde o início da série Devil in the Family, Kevin admite ter sido inseguro e dependente emocionalmente de Ruby.
Em um momento decisivo, ele revelou que estava disposto a fazer qualquer coisa para manter seu casamento, mesmo que isso significasse deixar sua casa e cortar contato com sua esposa e filhos por um período indefinido. Ao que tudo indica, Kevin precisava provar a Jodi Hildebrandt que havia “mudado” para ter permissão de voltar para sua família.
Então, essa submissão total abriu caminho para os piores abusos sofridos pelas crianças Franke. Com Kevin fora do cenário, Ruby e Jodi se sentiram livres para impor métodos cada vez mais severos e cruéis de disciplina. Quando a polícia invadiu finalmente a casa de Jodi, Kevin recebeu um telefonema de Ruby — era a primeira vez que falavam em um ano.
Muitos espectadores se perguntam: Como Kevin permitiu que isso acontecesse? Como ele simplesmente se afastou da própria família? Em uma entrevista à People Magazine, ele tentou se justificar:
“Muita gente olha para mim e pensa: ‘Como ele pôde fazer isso?’. Mas para aqueles que me perguntam com respeito, eu respondo: ‘Quem é a pessoa que você mais ama no mundo?’ E então eu pergunto: ‘Se essa pessoa começasse a seguir outro caminho e te incentivasse a ir junto, você conseguiria simplesmente dizer adeus e tirá-la da sua vida?’”
Sem dúvida, é um dilema difícil. A maioria de nós pode imaginar o peso emocional de estar nessa posição. No entanto, parece que o desejo de Kevin de preservar seu casamento superou seu julgamento sobre o que era certo para sua família.
Em um momento da série, ele diz que foi “1000% obediente” às ordens de Ruby e Jodi, na esperança de salvar seu relacionamento.

Nossa responsabilidade moral
Em 2 Néfi 2:14, Leí ensina que Deus criou “todas as coisas, tanto no céu como na terra… coisas para agir e coisas para serem agidas”.
Quando transferimos nossa responsabilidade moral para os outros em troca de aprovação, abrimos mão da liberdade que Deus nos deu para agir por nós mesmos.
Por mais difícil que seja, deve haver limites que não estamos dispostos a ultrapassar — não por amigos, não por familiares, nem mesmo por medo da rejeição.
É compreensível que Kevin tenha se agarrado ao desejo de pertencimento e conexão — afinal, essas são necessidades humanas essenciais. Família e amigos são parte fundamental da nossa identidade. No entanto, Cristo nos ensinou que o primeiro grande mandamento é amar a Deus acima de tudo:
“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.”
Portanto, todos os outros desejos e relacionamentos devem vir depois disso. O desejo de aprovação nunca pode nos levar a abdicar da nossa responsabilidade moral.

A influência no mundo digital (e além)
A história dos Franke não é um caso isolado. Hoje, mais do que nunca, somos cercados por influenciadores que afirmam ter soluções para nossos problemas, sonhos e dores. O “mercado da influência” nunca foi tão lucrativo — só em 2023, a chamada creator economy foi avaliada em 250 bilhões de dólares.
No meio desse turbilhão de vozes, precisamos nos perguntar: quem realmente está moldando nossas crenças e decisões?
O Presidente Russell M. Nelson já nos alertou sobre a necessidade de sermos seletivos com o que consumimos online. Em 2018, ele desafiou os jovens a fazer um jejum de redes sociais por sete dias.
Depois, fez o mesmo convite para as mulheres da Igreja, estendendo o desafio para dez dias. O objetivo era simples: reduzir distrações e fortalecer nosso foco espiritual. O recado é claro — nós não precisamos ser escravos dos algoritmos.
Mas a influência não se limita ao mundo digital. Muitas vezes, aqueles que mais impactam nossa vida são pessoas comuns, sem seguidores, sem curtidas, sem um “feed” cuidadosamente curado.

A influência silenciosa que realmente importa
No final de Devil in the Family, Kevin Franke tenta definir a lição de sua história. Ele diz:
“No fim das contas, é uma história sobre fé. Se você coloca sua fé nas mãos erradas, pode perder tudo.”
Enquanto ele fala, a câmera enquadra a estátua do anjo Morôni no topo de um templo, sugerindo que os Franke confiaram demais em sua fé e isso os levou à ruína.
Mas essa não é a verdadeira mensagem dessa história.
O verdadeiro alerta não é contra a fé, mas contra a falsa fé — a fé depositada em pessoas que não merecem nossa confiança, em influências superficiais e em gurus que prometem respostas fáceis para problemas complexos. Em um artigo da Liahona de novembro de 2023 lemos:
“Enquanto ainda ouço boas influências em busca de ajuda e inspiração, não posso esquecer Daquele “que está acima de todos os outros.” Jesus Cristo tem mais poder do que qualquer outra fonte para me dar força para enfrentar os desafios da vida e “cumprir [minha] missão na mortalidade.”
Assim, a verdadeira fé nos desafia a sermos íntegros, a reconhecermos nossas falhas sem nos escondermos atrás de uma imagem perfeita, a vivermos nossos valores mesmo quando isso não for conveniente. A emular Jesus Cristo.
O inimigo se infiltra onde há pretensão, autoengano e medo. Mas onde há verdade, integridade e influência de Cristo, ele não tem espaço.
E essa, sim, é uma lição de fé.
Fonte: Public Square Magazine
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