Os Santos dos Últimos Dias acreditam na graça de Jesus Cristo?
Há muitos anos, enquanto assistia ao Manti Pageant (um grande espetáculo teatral ao ar livre produzido por membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias), em Utah, encontrei um grupo de cristãos evangélicos protestando do lado de fora do local. Um deles afirmou com convicção que poderia provar, usando minhas próprias escrituras, que eu estava condenado ao inferno por ser membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Quando o convidei a demonstrar isso, ele abriu em 2 Néfi 25:23 e leu em voz alta:
“Pois trabalhamos diligentemente para escrever, a fim de persuadir nossos filhos e também nossos irmãos a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus; pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer.”
Em seguida, perguntou-me se eu poderia ter orado por mais tempo ou estudado as escrituras com mais diligência na noite anterior. Quando admiti que poderia, ele declarou que, pela minha própria confissão, eu não havia feito “tudo o que podia fazer” e, portanto, não poderia ser salvo.
Embora eu soubesse que sua interpretação estava equivocada, não consegui explicar imediatamente o motivo. Eu me sentia como C. S. Lewis ao refletir sobre a relação entre graça e obras, quando escreveu que “parece-me como perguntar qual das lâminas de uma tesoura é mais necessária”.
No entanto, eu não conseguia encontrar uma base escriturística que sustentasse essa compreensão. Anos mais tarde, estudando o livro de Alma, encontrei uma passagem que, para mim, lançou uma luz extraordinariamente clara sobre essa expressão de Néfi.

Um problema de definição
Depois de ler essa passagem e relacioná-la com aquela experiência, percebi que a questão era simplesmente um problema de definição.
Meu interlocutor partia do pressuposto de que “tudo o que podemos fazer” significava: toda e qualquer atividade humana relacionada à salvação.
Sob a perspectiva de muitos cristãos evangélicos, a ideia de que alguém possa conquistar a graça por meio de obras não faz sentido. Assim, a expressão de Néfi, “depois de tudo o que podemos fazer”, lhes soa como uma defesa da salvação pelas obras.
Entretanto, atribuir esse significado às palavras de Néfi é absurdo e certamente não pode ser o que ele pretendia dizer, pois, segundo essa definição, a salvação seria impossível. Felizmente, a passagem que encontrei oferece uma definição muito mais coerente.
Os anti-néfi-leítas e “tudo o que podíamos fazer”
Em Alma 24, o povo dos anti-néfi-leítas enfrentou uma grande prova moral. Depois de serem convertidos de uma vida marcada pelo derramamento de sangue, fizeram convênio de jamais voltar a pegar em armas. Quando seus antigos irmãos se prepararam para atacá-los, surgiu a dúvida: seria justificável quebrar esse convênio diante da crise?
Seu rei relembrou a gravidade dos pecados que haviam cometido anteriormente e testificou:
“E agora eis que, meus irmãos, visto que tudo o que pudemos fazer (pois éramos os mais perdidos de todos os homens) foi arrependermo-nos de todos os nossos pecados e dos muitos assassinatos que tínhamos cometido e conseguir que Deus os tirasse de nosso coração, porque isto foi tudo que pudemos fazer para arrependermo-nos o suficiente perante Deus, a fim de que ele nos tirasse nossa mancha.”(Alma 24:11)
Esse versículo fornece uma importante chave de interpretação para compreender o problema apresentado pelo evangélico.
A expressão “tudo o que podíamos fazer” parece referir-se, não a um desempenho moral exaustivo, mas ao arrependimento. Para esse povo, isso significava abandonar completamente o pecado e entregar-se inteiramente a Deus. Significava render o coração e confiar plenamente na misericórdia divina.
Quando entendemos a passagem sob essa perspectiva, a declaração de Néfi em 2 Néfi 25:23 não entra em conflito com os ensinamentos bíblicos sobre a graça; ela os complementa. A salvação vem “pela graça”, e a expressão “depois de tudo o que podemos fazer” identifica o arrependimento como a resposta humana essencial que permite que a graça opere plenamente em nossa vida.

Implicações teológicas
Essa interpretação esclarece um equívoco persistente sobre a doutrina dos Santos dos Últimos Dias.
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não ensina que a graça depende de um esforço humano exaustivo. Pelo contrário, ensina que a graça é tanto o poder capacitador quanto o poder redentor de Cristo, concedido a todos os que se arrependem e vêm a Ele.
Como explica Robert L. Millet:
“A expressão ‘depois de tudo o que podemos fazer’ não sugere uma sequência em que a graça seja conquistada pelo esforço; ela descreve, antes, a atitude de alguém que se arrependeu e voltou-se completamente para o Salvador.”
Assim, os anti-néfi-leítas personificam a harmonia entre a graça divina e a decisão humana de arrepender-se e voltar-se para Cristo.
Algumas metáforas ensinadas na Igreja podem transmitir a impressão de que primeiro a pessoa precisa cumprir uma série de requisitos e, somente depois de realizá-los perfeitamente, poderá receber a graça de Deus.
Entretanto, o ensino das escrituras é que a graça de Cristo é suficiente para todos os homens; a única condição é a disposição de seguir a Cristo (Éter 12:27).
Como ensinou o Élder Bruce R. McConkie:
“Toda salvação é gratuita; tudo vem pelos méritos, pela misericórdia e pela graça do Santo Messias. Não existe salvação, de qualquer tipo, natureza ou grau, que não esteja vinculada a Cristo e à Sua Expiação.”
Há, portanto, amplo espaço para concordarmos com nossos irmãos e irmãs cristãos que a salvação é realizada única e completamente por meio de Cristo e de nossa aceitação Dele como nosso exemplo.
Como ensinou Morôni:
“Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade; e se vos negardes a toda iniquidade e amardes a Deus com todo o vosso poder, mente e força, então sua graça vos será suficiente; e por sua graça podeis ser perfeitos em Cristo; e se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo, não podereis, de modo algum, negar o poder de Deus. E novamente, se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo e não negardes o seu poder, então sereis santificados em Cristo pela graça de Deus.” (Morôni 10:32–33)

Conclusão
Quando observamos Alma 24:11 como chave interpretativa, o significado da expressão “depois de tudo o que podemos fazer” torna-se claro.
“Tudo o que podemos fazer” é arrepender-nos, entregar nosso coração e invocar o nome de Cristo.
Tudo o que vem depois, nosso perdão, santificação e exaltação, depende de Sua graça infinita.
Essa verdade também é ensinada claramente no livro de Helamã, quando o comportamento de certos membros orgulhosos da Igreja é contrastado com a humildade daqueles que verdadeiramente buscavam seguir a Cristo:
“Não obstante, jejuavam e oravam frequentemente e tornavam-se cada vez mais fortes em sua humildade e cada vez mais firmes na fé em Cristo, enchendo a alma de alegria e consolo, sim, purificando e santificando o coração, santificação essa resultante da entrega de seu coração a Deus.” (Helamã 3:35)
O exemplo dos anti-néfi-leítas, assim como o dos humildes discípulos descritos no livro de Helamã, lembra-nos de que a salvação não é alcançada por um esforço interminável, mas por meio da humilde submissão.
Sua história, lida juntamente com o ensinamento de Néfi, confirma que o Livro de Mórmon não diminui a graça; ele a engrandece.
E, assim como eles, quando fazemos tudo o que podemos fazer, arrependendo-nos e voltando-nos para Cristo, descobrimos que Sua graça também é suficiente para nós.
Fonte: The Interpreter Foundation
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Post original de Maisfé.org
