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Um milagre como presente de Dia dos Pais

Eu e minha esposa nos casamos em março de 2019, no templo de Recife. Somos membros da Estaca João Pessoa Rangel, Ala Parque do Sol. Desde o início, ter filhos sempre foi um desejo nosso. Na bênção patriarcal da minha esposa isso está muito explícito: o Senhor promete que ela teria filhos para criar, educar e ensinar nessa vida. A minha, na verdade, não fala sobre isso, mas eu sempre entendi que, se eu me esforçasse e fosse fiel, em algum momento aconteceria.

Passaram-se 2019, 2020, 2021, e essa bênção não se cumpria. Minha esposa tem síndrome do ovário policístico, o que dificulta muito a gravidez. Fiz todos os exames possíveis e constatei que, da minha parte, não havia dificuldade, o desafio estava ali, na condição dela. Ela passou por diversos tratamentos, com médicos diferentes.

Cada tentativa nova trazia uma esperança nova, um desejo alimentado outra vez, e quando não dava certo vinha de novo a frustração de recomeçar tudo, nova medicação, novo tratamento. Foi muito desgastante para ela, e para mim também, que via todo esse processo e me sentia impotente, sem poder ajudar de outra forma.





A fila de adoção e uma experiência sagrada

Em 2021 sentimos que deveríamos entrar na fila de adoção. Nos habilitamos no Cadastro Nacional de Adoção, dispostos a adotar um grupo de irmãos, de até duas crianças, com idade entre zero e seis anos, depois ampliamos para sete.

Quando entramos, estávamos na posição 200 da fila. Os anos foram passando, 2021, 2022, 2023, 2024, e os filhos não vinham, nem de forma natural, nem pela adoção. Olhávamos aquela fila enorme à nossa frente e pensávamos que ainda ia demorar muito.

Nesse período, fomos ao templo algumas vezes, para realizar ordenanças por familiares dela que ainda não as tinham recebido. Em uma dessas idas, tivemos uma experiência espiritual muito sagrada na sala celestial, relacionada às crianças.

É algo que guardamos só entre nós dois; nem com as crianças compartilhamos ainda, esperamos que tenham mais maturidade para entender. Mas aquilo foi, para nós, uma resposta do Senhor: o desejo de ter filhos se cumpriria, não sabíamos quando, mas se cumpriria.

Os julgamentos e o peso da espera

Nem tudo foi fácil dentro da própria igreja. Passamos por julgamentos de pessoas que, sem entender o que vivíamos, diziam coisas como “não têm filhos porque não querem” ou “porque preferem aproveitar a vida”.

Numa época em que fomos chamados para servir no berçário, chegaram a nos dizer: “já que vocês não querem ter filhos, agora vão cuidar dos filhos dos outros”. Ouvir isso, depois de anos tentando engravidar e enfrentando dificuldades de saúde, foi muito difícil.

Esses anos de espera também cobraram um preço emocional, tanto para mim quanto para ela. Percebi que boa parte desse sofrimento vinha de tentar controlar algo que estava além do nosso controle, mesmo sendo um desejo justo, um anseio legítimo do coração.

Aprendemos a entregar isso nas mãos do Senhor, a dizer para Ele: eu já fiz tudo o que podia fazer, agora está além do que posso fazer, seja o que Tu desejares, no Teu tempo, do Teu jeito. Tivemos que ser uma fortaleza um para o outro, nos momentos em que eu estava mais fraco, ela foi forte por mim; nos momentos em que ela estava mais fraca, fui forte por ela. E quando os dois estávamos fracos ao mesmo tempo, confiamos que o Senhor nos ajudaria a atravessar aquilo. E Ele ajudou.

milagre Dia dos Pais

O Dia dos Pais que mudou tudo

Um momento específico marcou essa espera. No Dia dos Pais de agosto de 2025, pela manhã, vi no grupo da ala fotos de outros pais já na capela, tirando fotos com os filhos. Aquilo me trouxe um sentimento ruim, não sei se chamaria exatamente de inveja, mas não me senti bem. Eram amigos, irmãos que eu estimava, que não tinham nenhuma culpa pelas minhas expectativas não realizadas, e ainda assim eu não conseguia deixar de sentir aquilo.

Não tive vontade de ir à igreja naquele dia. Sempre disse à minha esposa que nada deveria nos impedir de ir, exceto questões de saúde, mas naquele domingo específico, tive um conflito interno grande. Fiquei no quarto, sozinho, sem dividir aquilo com ela, com medo de que parecesse uma cobrança.

No ano anterior eu havia sentido algo parecido, mas tinha ido à igreja mesmo assim. Daquela vez, não fui. Conversei com o Senhor como quem conversa com outra pessoa: disse que sabia o quanto era sagrado estar na Sua casa, mas que não queria estar lá carregando aquele sentimento. Disse que já tinha feito tudo o que podia, em esforço, em pedido, em desejo, e que agora entregava aquilo em Suas mãos.

A ligação que ninguém esperava

Entre uma a duas semanas depois daquele Dia dos Pais, recebemos a ligação. Fazia pouco tempo que havíamos checado nossa posição na fila, estávamos na posição 80, 81, e pensávamos que ainda faltavam uns dois ou três anos.

Foi quando minha esposa recebeu uma ligação da vara da cidade onde ficava a casa de acolhimento das crianças: havia um casal de gêmeos que tinham acabado de fazer aniversário, e queriam saber se tínhamos interesse em conhecê-los.

Foi uma mistura de alegria enorme com um receio real, a casa de acolhimento ficava a seis horas da nossa cidade, e havia toda uma questão financeira e logística de viagem envolvida. Mesmo assim, fomos com a cara e a coragem.

Até hoje não entendemos como pulamos da posição 80 para sermos os escolhidos. O próprio oficial de justiça avisou que, se não confirmássemos até as 17h daquele mesmo dia, procurariam outro casal no sistema. Minha esposa, assim que conseguiu falar comigo, confirmou o interesse na hora.

Yorran e Hilary

Os gêmeos, Yorran e Hilary, faziam parte de um grupo maior de sete irmãos. Os dois mais novos já haviam sido adotados por um casal da Igreja, da Congregação Betel, que serviam missão fora do país e foram morar no Japão. Os outros cinco, mais velhos, seguiam disponíveis para adoção, a Justiça dividiu o grupo para facilitar, já que adotar os sete de uma vez era mais difícil.

Fomos conhecê-los na cidade de Monteiro, cerca de seis horas de distância. O protocolo exigia dez visitas dentro de um mês, então íamos aos sábados, ficávamos hospedados numa pousada e visitávamos também no domingo. No primeiro encontro, eles estavam tímidos; no dia seguinte já tinham se soltado, elétricos, agitados, felizes com a possibilidade daquela aproximação.

Para nós também foi um misto de choque e receio, não sabíamos como nossas famílias reagiriam. A minha era mais reservada e quase não perguntava sobre o processo. Já a família da minha esposa tinha a mente mais aberta e demonstrava curiosidade. O medo do julgamento alheio também rondava nossa cabeça, mas nos esforçamos para viver aquele momento com as crianças e construir o vínculo que buscávamos.

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Uma família selada

Hoje, Yorran e Hilary têm nove anos, completados em março deste ano. Estão conosco desde outubro do ano passado.

No dia 8 de agosto serão batizados, e terei a alegria de participar desse momento; em setembro seremos selados como família no templo. As primeiras semanas de adaptação foram desafiadoras, sabíamos que seria assim na teoria, mas na prática foi diferente.

Uma cidade nova, uma casa nova, costumes novos: eles chegaram com o hábito de “rezar”, e fomos ensinando aos poucos que, para nós, é uma conversa com Deus. Limites, regras, tudo foi se ajustando com o tempo. Já recebemos a guarda definitiva e um novo registro de nascimento, eles mesmos optaram por trocar o sobrenome dos genitores pelo nosso.

Eles demonstram um interesse enorme pela igreja, pela Primária, pelas atividades. E hoje só nos traz alegria saber que nossos filhos são nossos.

Se eu pudesse dizer algo a quem está numa espera parecida: não desistam. A espera é difícil, exige paciência, perseverança, fé, e um desapego de que as coisas aconteçam no nosso tempo ou do jeito que imaginamos. As promessas do Senhor vão se cumprir, só não necessariamente como ou quando esperamos.

Ter filhos, sejam eles vindos de forma natural ou vindos do coração, de uma escolha, de uma adoção, é uma grande bênção. E eu sou muito grato, porque sei que o Senhor cumpre as promessas que faz, como cumpriu na minha vida, na vida da minha esposa e dos nossos filhos.

Artigo escrito com base no relato do irmão Luciano Junior

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