Família venezuelana relata vida nova em Araraquara

Para fugir da miséria, os Chaparro deixaram a cidade de Puerto la Cruz e vieram para o Brasil; com a ajuda da igreja estão se reconstruindo

 

Fernanda Manécolo | ACidadeON/Araraquara

 

Família Chaparro está morando em Araraquara e reconstruindo a vida (Fotos: Amanda Rocha)

“A necessidade pode mais que a fome”. A fala faz parte do relato emocionante do venezuelano Reinaldo Alberto Chaparro, de 33 anos. Há nove meses, ele está morando em Araraquara com a esposa, Jhoaurimar Irua Suárez Perdomo, 31, e os três filhos, Aura Maria, 4, Alvin, 5, e Jhael, 6.

Chaparro é formado em marketing e era gerente comercial de uma petrolífera, na Venezuela. Tinha um bom salário, mas não conseguia alimentar sua família. “Com a presidência do Maduro [Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela], as condições sociais e econômicas ficaram muito ruins, a inflação subiu e os salários perderam o valor. Além disso, ele impôs uma série de leis que impediam o progredir das famílias” relata.

Passando por necessidades, Chaparro disse à esposa que pensava em se mudar. A família é membro da Igreja Jesus Cristo dos Últimos Dias e como Chaparro já tinha sido missionário, começou a pedir ajuda de outros membros para sair do país.

“Tinha planos de ir para o Panamá, Colômbia, Equador, mas não deu certo. Acabei indo para o Peru em 2018, com dinheiro emprestado de um amigo. Lá eu fiquei durante 10 meses trabalhando, morando em uma casa alugada pela igreja e enviando dinheiro para minha família, mas as dificuldades no Peru eram grandes e por isso, voltei para Venezuela”, conta.

Jhael tem 6 anos e seu irmão Alvin, 5, ambos estão estudando e aprenderam o português (Fotos: Amanda Rocha)

Brasil
Mais uma vez, Chaparro buscava uma saída para escapar da crise até que um amigo comentou sobre o Brasil e eles resolveram arriscar. “Oramos e pedimos orientação ao Senhor e então decidimos pelo Brasil”.

A família vendeu tudo e saíram de Puerto la Cruz, na costa Norte da Venezuela, com cerca de R$ 100. Foram 15 horas de viagem de ônibus até a cidade fronteira, Boa Vista, em Roraima. “Fomos recebidos pela equipe da ONU [Organização das Nações Unidas] que nos deram o que comer. Estávamos há dois dias sem nos alimentar, demos bananas para as crianças e eu e minha esposa não comemos nada. A necessidade pode mais que a fome”, relata.

Em Boa Vista entraram em contato com o missionário Carlos Wizard Martins, que está fazendo um trabalho com venezuelanos. “Tínhamos planos de ir para Porto Alegre, mas a família Martins nos disse que tinha um lugar muito bom para nós chamado Araraquara, por isso, seguimos para cá”, conta.

Araraquara foi escolhida por ser uma cidade acolhedora e que poderia proporcionar ao filho do meio do casal, Alvin, que tem autismo, um tratamento adequado. “Acreditamos nas revelações de Deus e essa decisão nos parecia acertada”, acrescenta Reinaldo.

A família Chaparro chegou a Araraquara no dia 20 de janeiro. “Quando chegamos aqui estava tudo organizado pelos nossos irmãos da igreja. Não acreditávamos no que estávamos vendo. Tínhamos mais coisas do que na Venezuela. Tínhamos casa, móveis e comida. Não acreditamos. As pessoas iam chegando querendo nos conhecer, tudo muito acolhedor”, afirma.



 

Quando chegaram, a família dependia da ajuda da Igreja Jesus Cristo dos Últimos Dias, que atualmente acolhe 117 venezuelanos em Araraquara, através de um projeto social. Atualmente, com um emprego de atendente de teleatendimento, Chaparro consegue sustentar sua família.

“Desde janeiro nossa vida mudou muito, desde a língua até nossa vida toda. Meus filhos estão muito bem na escola; meu filho Alvim falava apenas coisas pontuais e hoje fala tudo em português. O Brasil tem sido um lugar de muitas bençãos, principalmente pelo desenvolvimento do meu menino Alvim”, diz a mãe, Jhoaurimar Irua Suárez Perdomo.

Ela acrescenta que seus três filhos estão frequentando a escola e já falam muito bem o português. “Eles se enturmaram muito bem na escola”.

Família Chaparro junto com o Bispo Marcelo Paiva da Igreja Jesus Cristo dos Últimos Dias (Fotos: Amanda Rocha)

Projeto da igreja
A Igreja Jesus Cristo dos Últimos Dias surgiu em 1830, montou bases por todo o mundo e atraiu seguidores. Hoje é a 4ª maior igreja dos EUA, com 9,1 milhões de adeptos. No Brasil são 1,3 milhão de mórmons.

Seus membros acreditam que o progresso é eterno, que a vida é uma passagem e as pessoas tem o propósito de progredir.

“Todos os nossos fundamentos religiosos pressupõem a integridade do indivíduo. Se não tiver integridade, não há negócio duradouro. Um segundo princípio é o de servir sempre. Quando os empregados de uma empresa têm esses fundamentos, há uma grande diferença no resultado final”, diz Carlos Wizard Martins, de 62 anos, um dos membros ativos da igreja no Brasil e missionário no projeto que ajuda os venezuelanos.

O empresário, que é presidente do grupo Sforza, que detém empresas como Mundo Verde, Pizza Hut, Wise Up e Taco Bell, é missionário e está envolvido junto com sua esposa Vânia Martins, de 60 anos, em um projeto que prevê tirar os refugiados das ruas.

Para isso, ele faz uma triagem das famílias e junto com outros membros da igreja designam um destino mais oportuno, onde as pessoas podem ter oportunidades de trabalho e estudo. Foi isso que aconteceu com a família Chaparro.

“Quando eles chegaram a Roraima, nós recebemos uma foto da família e quais eram as suas necessidades. Aí fizemos uma reunião para saber se daríamos conta de abrigá-los. Aceitamos e eles chegaram. Agora fazem parte da nossa grande família”, diz o bispo Marcelo Paiva, de 39 anos, que trabalha na Igreja em Araraquara.

Ato de fé
“Vir para o Brasil foi um ato de fé. Quando chegamos aqui e fomos recebidos com comida foi uma resposta. Muito tempo que não comíamos carne, salada, muitas coisas que eles deram para nós. Meus filhos nunca tinham visto uma maça e somos muito gratos por isso. Cada vez que preparo comida e como, eu choro, porque com os meus olhos eu vi criança pegando comida do lixo e isso é terrível demais. Normalmente comíamos sardinha com mandioca, essa era a comida venezuelana depois da crise. Nosso dinheiro dava pra comprar dois pacotes de macarrão por mês ou uma cartela de ovo. A situação está muito grave”, diz Jhoaurimar Irua Suárez, esposa de Reinando Chaparro.

Jhoaurimar conta que antes da crise fazia cupcakes e vendia cerca de 250 unidades por dia. “Trabalhávamos muito, mas teve um momento que não conseguíamos fazer mais nada”, reforça.

A família não pretende voltar para a Venezuela, mas sente saudades da família. “Nossos pais e irmãos ficaram lá. Sentimos saudades deles. Temos nos falado, mandamos dinheiro, mas sentimos falta da família”, afirma Reinaldo Chaparro.

Família Chaparro diz que sente saudades da família, mas não da atual situação da Venezuela (Fotos: Amanda Rocha)

Entenda

A Venezuela passa pela pior crise da sua história. Índices econômicos baixíssimos, instabilidade política e violência. No meio da disputa está o povo, que sofre com a crise de abastecimento, sem produtos de primeira necessidade e com a escalada da violência, com o número de mortos disparando, principalmente nos embates entre os prós-governistas e os seus opositores.A Venezuela é um país reconhecido pelas suas grandes reservas de petróleo e gás natural. Por se tratar do sétimo maior produtor de petróleo do mundo, o setor petrolífero representa cerca de um terço do PIB, aproximadamente 80% das exportações e mais da metade do orçamento governamental.

Atualmente o país é governado pelo presidente Nicolás Maduro, que enfrenta um forte descontentamento da população em relação a sua gestão. Maduro assumiu o governo com o propósito de dar continuidade às políticas de seu antecessor, Hugo Chávez.

Contudo, a Venezuela vivia tempos difíceis no ano de 2013, quando Maduro tomou posse como presidente. Com uma inflação que ultrapassava 800% ao ano e barris de petróleo apresentando altas em seu preço, o país se viu imerso em um colapso econômico, que resultou em uma dramática crise humanitária.

Faltavam no país insumos básicos para a sobrevivência. Os supermercados não atendiam a população. Por causa disso, milhares de venezuelanos decidiram migrar para outros países à procura de trabalho e de melhores condições de vida, e um dos principais destinos é o Brasil.

“De maneira geral, o venezuelano não migra, não somos migrantes, nosso povo é muito enraizado, gostamos da nossa terra, mas a situação está difícil. Os venezuelanos estão sem oportunidade de progredir. Enfrentamos a fome, desnutrição, pessoas doentes, morrendo, por isso estamos deixando a nossa terra”, relata Reinaldo Chaparro.

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