O Universo foi mesmo criado em 7 dias? É isso que a Bíblia ensina?

Não! A Bíblia não ensina que o Universo foi criado em 7 dias. De fato ela não fala da origem do Universo, e sim da criação física do planeta Terra. Alguns encontram indicações da criação do Universo nos primeiros versículos – que falam do “princípio”, mas o fato é que a intenção de Moisés é falar sobre a criação de nosso planeta (Moisés 1:40).

Corrigindo, portanto, o questionamento, teríamos: “Deus criou a Terra em apenas 7 dias?”. Novamente um erro. Ainda que levássemos ao “pé da letra” (literalmente) o registro em Gênesis, pois é verdade que você vai encontrar lá a palavra “dia” – seriam 6 dias de obra criativa – e um de descanso. Todavia, em outras escrituras, e nos ensinamentos dos profetas modernos, aprendemos que “dia” não se refere a um período de 24 horas. De fato, nos primeiro dia, nem Terra formada havia para rotacionar em torno de si mesma e astros brilhantes…

Por exemplo, em Abraão 3 e 4 os dias de Criação são chamados “vez”. Primeira vez, segunda vez, etc. Isso faz mais sentido. Cada dia de criação pode ter durado muito mais tempo do que 24 horas…

Quando Moisés recebeu a revelação da Criação da Terra teve a árdua tarefa de descrevê-la com símbolos terrenos. Imagine! Deve ter sido uma tarefa imensa! Ele precisou usar palavras comuns para explicar o extraordinário. Moisés estava ciente de que o povo de Deus, que receberia seu relato, precisava compreender o suficiente da Criação para achegar-se ao Salvador. Eles precisam saber que Deus criou a Terra, que o fez de maneira ordenada e sábia, que fez o homem e a mulher à Sua semelhança e que descansou no sétimo dia. A intenção do profeta, portanto, não era a de dar detalhes sobre “como” a Terra foi criada – e nem “quando”.

No princípio

A expressão “no princípio” não deduz “a priori” um ponto de partida ou um inicio do nada [1]. “No princípio” trata-se da palavra mais adequada encontrada por Moisés (ou pelos copistas e tradutores) para descrever um momento na eternidade, uma divisão entre eventos, na qual a obra de criação começou para nós. Mas veja: até essa ideia (de momento na eternidade) é absolutamente inconveniente para mentes mortais como a nossa. Gostamos de considerar apenas coisas que somos capazes de entender. Nosso raciocínio nos leva a pensar que se na eternidade não há tempo, como, então, se pode falar de um “principio”? Neste contexto a declaração do Presidente Brigham Young é oportuna:

“Quando houve um começo? Jamais houve um; se houvesse, haveria um fim; porém jamais houve um começo; por conseguinte, nunca haverá um fim; assim é a eternidade. Quando falamos a respeito do inicio da eternidade, é uma conversa bastante simplória, e vai muito além da capacidade humana.” (Discursos de Brigham Young, pg. 47)

Moisés precisou ser transfigurado e arrebatado e conversar com Deus (Moisés 1) para entender coisas que os olhos não viram e que não subiram no coração do homem (I Coríntios 2:9). Afinal há coisas que se discernem espiritualmente (I Coríntios 2:14). E não podemos chegar ao mesmo entendimento do profeta sem passar pela mesma experiência.

Embora não entendamos tudo sobre a Criação, nem mesmo qual a abrangência e significado do termo “princípio” na obra criadora – podemos saber que houve uma criação e regozijar-nos neste fato. O Senhor quer que saibamos sobre Sua Criação, pois concedeu-nos três relatos da Criação nas escrituras: Gênesis 1-2, Moisés 2-3 e Abraão 4-5; além do relato do Templo [2].

Todos os relatos da criação usam a expressão “princípio”. Todavia, sabemos, por outras escrituras, que a Terra não foi à obra inaugural de Deus (Moisés 1:33, Hebreus 11:3). Assim, “princípio” nos relatos da Criação se referem ao inicio da Dispensação desta Terra. Trata-se de um ponto inaugural para os filhos de Deus que entrariam no Segundo Estado. O Senhor disse a Moisés: “far-te-ei um relato apenas sobre esta Terra e seus habitantes. Pois eis que há muitos mundos que pela palavra de meu poder passaram. E há muitos que agora permanecem e são inumeráveis para o homem; mas todas as coisas são enumeráveis para mim, pois são minhas e eu conheço-as. (…) Os céus, eles são muitos e são inumeráveis para o homem; mas são enumeráveis para mim, pois são meus. E como uma terra com seu céu passará, assim outra surgirá; e não há fim para minhas obras nem para minhas palavras. Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem. E agora, Moisés, meu filho, falar-te-ei a respeito desta Terra na qual estás; e escreverás as coisas que te direi.” (Moisés 1:35-40)

Duração dos “Dias” ou períodos de Criação

Sob a direção do Pai, Cristo formou e organizou a Terra. Separou a luz das trevas para fazer o dia e a noite. Formou o sol, a lua e as estrelas. Dividiu as águas, separando-as da terra seca, formando mares, rios e lagos e fez a Terra bela e produtiva. Fez a grama, as árvores, flores e outras plantas de todas as espécies. Essas plantas continham sementes das quais novas plantas seriam geradas.

Depois criou os animais — os peixes, o gado, os insetos e pássaros de todas as espécies. Esses animais tinham a capacidade de reproduzir sua própria espécie.
A Terra ficou então preparada para a maior de todas as criações — a humanidade. Nosso espírito receberia um corpo de carne e sangue para viver nesta Terra. “E eu, Deus, disse ao meu Unigênito, que estava comigo desde o princípio: Façamos o homem a nossa imagem, segundo nossa semelhança; e assim foi” (Moisés 2:26). E, dessa forma, o primeiro homem, Adão, e a primeira mulher, Eva, foram criados e receberam corpos que se assemelhavam àqueles de nossos pais celestiais. “À imagem de Deus os criou: homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27). Ao terminar Suas criações, o Senhor agradou-Se do que havia feito, reconheceu que Sua obra era boa e descansou por algum tempo. (Princípios do Evangelho)

O Presidente Brihgam Young, falando a respeito dos seis dias da criação, disse que seis dias

“é apenas uma expressão, mas não importa se ela levou seis dias, seis meses ou seis mil anos. A criação durou determinados períodos de tempo. Não estamos autorizados a dizer qual foi a duração desses dias, se Moisés usou essas palavras como as usamos, ou se os tradutores da Bíblia deram a essas palavras o significado que quiseram. Contudo, Deus criou o mundo. Deus reuniu o material com o qual Ele formou esta Terra firme sobre a qual vagamos. Há quanto tempo existia esse material? Uma eternidade, em determinada forma e condições”. (Discourses of Brigham Young, sel. John A. Widtsoe, 1971, p. 100; ver também Alma 40:8.)

O Élder Bruce R. McConkie ensinou que um dia, no relato da Criação,

“é um período específico de tempo; é uma era, um éon, uma divisão da eternidade; é o intervalo entre dois eventos conhecidos. E cada dia tem a duração, seja ela qual for, necessária para seus propósitos (…). Não existe nenhuma revelação que especifique que cada um dos ‘seis dias’ referidos na Criação tenha tido a mesma duração”. (“Christ and the Creation”, Ensign, junho de 1982, p. 11.)

A importância da Criação

Nosso Profeta, Presidente Russell M. Nelson declarou:

“Testifico que a Terra e toda a vida que nela existe são de origem divina. A Criação não aconteceu por acaso. Ela não foi feita do nada. E não é por mero acaso que a mente humana e as mãos humanas são capazes de construir edifícios ou criar computadores. Foi Deus quem nos fez, não nos criamos a nós mesmos. Somos o Seu povo! A própria Criação testifica a existência de um Criador. Não podemos negar o que há de divino na Criação. Sem nosso grato reconhecimento da mão de Deus na Criação, seríamos tão insensíveis em relação a nosso provedor quanto os peixinhos de um aquário. Com profunda gratidão, repito as palavras do salmista, que declarou: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas” (Salmos 104:24) (“A criação”, Conferência Geral, abril de 2000)

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[1] “Os primeiros comentários judeus e cristãos sobre a criação presumiam que Deus havia organizado o mundo a partir de materiais pré-existentes, salientando a bondade de Deus na formação de uma ordem que mantivesse a vida., mas a incursão de novas ideias filosóficas no século II levou ao desenvolvimento de uma doutrina que Deus criou o universo ex nihilo — “do nada”. Isso acabou se tornando o ensino dominante sobre a criação dentro do mundo cristão. A fim de salientar o poder de Deus, muitos teólogos justificavam que nada poderia ter existido antes Dele. Tornou-se importante em círculos cristãos afirmar que Deus estava completamente sozinho originalmente.

A criação “ex nihilo” ampliou o abismo percebido entre Deus e os homens. Tornou-se menos comum ensinar que as alma humanas já existiam antes do mundo ou que poderiam herdar e desenvolver os atributos de Deus em sua totalidade no futuro. Gradualmente, como a depravação da humanidade e a imensa distância entre o criador e criatura foi salientada cada vez mais, o conceito de deificação se enfraqueceu na cristandade ocidental, apesar de ainda continuar a ser o dogma central da ortodoxia oriental, um dos três maiores ramos do cristianismo.” (Tópicos do Evangelho: “Tornar-se como Deus”, https://www.lds.org/topics/becoming-like-god?lang=por)

[2] Nos Templos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias os membros fiéis recebem uma investidura de poder e conhecimento, que inclui elementos do Plano de Salvação, como a Criação, a Queda e a Expiação. “Em sentido geral, é um dom de poder que provém de Deus. Os membros dignos da Igreja podem receber uma investidura de poder por meio das ordenanças do templo, que lhes dão as instruções e os convênios do Santo Sacerdócio requeridos para se alcançar a exaltação. A investidura inclui instruções acerca do plano de salvação.” (Guia para o Estudo das Escrituras “Investidura, Investir”)

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